sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A poeira e o vento (04/12/2009)

A poeira e o vento
Guilherme Ávilla Gimenez - http://www.vidanova.com.br

O vento sopra onde quer, e ouves o seu som; mas não sabes de onde ele vem nem para onde vai; assim é todo que é nascido do Espírito (Jo 3.8)
Alguém definiu avivamento como o “o sopro de Deus para tirar a poeira acumulada no decurso dos anos, no período variável de tempo compreendido entre o avivamento anterior e o momento atual” (Revista Ultimato). Possivelmente Jesus Cristo deve ter pensado nessa limpeza quando conversava com Nicodemos (Jo 3). Podemos dizer que Nicodemos fazia parte de um grupo de religiosos empoeirados. Aliás, ele era um dos mais empoeirados. Era líder e não recebera esse título à toa. Na cultura farisaica, o líder seria aquele que carregava de modo impecável toda a tradição e a declarava como sendo a maior riqueza de sua vida (Lawrence H. Schiffman). Os fariseus valorizavam a masorti (tradição) como valor fundamental da religião e declaravam sua validade por todo o tempo, até a vinda do Messias. Como não reconheceram Jesus como tal, continuaram a manter a tradição judaica. Por certo estavam ‘empoeirados’ pelo passar de tantos anos sem mudança.

Em uma conversa franca e feita às escondidas — talvez para que a poeira não fosse vista facilmente — algumas verdades sobre a vida de Nicodemos vieram à tona. A primeira delas é que mesmo sendo fariseu — ou seja, religioso — ele não tinha convicções espirituais. Literalmente se escondia atrás da religião. Defendia sua fé, mas desconhecia o Senhor. Ao detectar isso, Jesus afirmou diretamente: “Você precisa nascer de novo” (v. 3). Em outras palavras: “Não dá para consertar você... temos que começar do zero...”. E esse recomeço não estava relacionado ao farisaísmo, mas sim a Nicodemos. Ele é que precisava mudar. Ele é que deveria experimentar o novo nascimento.

Outra verdade da vida de Nicodemos é que, apesar de sua preparação acadêmica e religiosa (“Tu és mestre em Israel”, v. 10), ele não tinha relacionamento com Deus. Sua religiosidade tratava de coisas terrenas e humanas, mas não das espirituais (v. 12). Os fariseus haviam transformado a religiosidade em “tradição humana”. Por isso temos no Novo Testamento expressões como: “tradição dos anciãos” (Mt 15.2, Mc 7.3), “vossa tradição” (Mt 15.3, 6) e “tradição dos homens” (Mc 7.8, Cl 2.8). Por estar tão preso à tradição humana ele desconhecia o amor de Deus, a vida eterna e outros assuntos espirituais (v. 13-21). Nicodemos era um religioso perdido, mestre na tradição, mas aluno reprovado na fé.
Qual seria a esperança de Nicodemos? Primeiramente a salvação, que ele aparentemente não tinha. Mas com ela um avivamento, um soprar do vento de Deus para tirar do lugar toda a poeira acumulada dos últimos anos. E, se considerarmos a opinião de Lawrence H. Schiffman, Nicodemos deveria ter mais do que trinta anos de farisaísmo para ocupar um cargo de liderança. Imagine quanta poeira não ficou acumulada durante esse tempo todo.

Naquela noite, a vida de Nicodemos passou por uma grande transformação. O vento de Deus soprou sobre ele de uma maneira singular, e ele experimentou grande avivamento pessoal. Ainda hoje o vento de Deus continua a soprar produzindo efeitos semelhantes. Não é o “movimento do ar”, mas sim o “movimento de Deus”. É Deus limpando, tirando a poeira e revitalizando vidas. Essa manifestação surpreendente de Deus recoloca a igreja em seu primeiro amor, produz convicção e confissão de pecado, desejo sério de santificação pessoal, renovação das certezas da fé e do entusiasmo que elas criam, renúncia da soberba e da autossuficiência, anseio por Deus e prazer de ler com proveito a Palavra e de orar ao Senhor. O avivamento leva a igreja a redescobrir a pessoa e a obra do Espírito Santo, sem o qual nunca será possível vencer o pecado, a pressão do mundo e a força do mal.

Na história, foram registrados alguns ventos de Deus que produziram grandes resultados. Eles foram chamados de Grandes Avivamentos. Graças ao primeiro (1725-1760) e ao segundo (meados do século seguinte), muitas escolas, universidades e seminários cristãos foram fundados nos Estados Unidos. Entre as Universidades estão as de Princeton, Pensilvânia, Rutgers, Brown e Dartmouth. Por meio dessas instituições de ensino, o espírito de avivamento era transmitido a muitos jovens. Charles Dodge, um dos três teólogos mais famosos do século 19, por exemplo, converteu-se por ocasião de um avivamento na Universidade de Princeton (1815). Nessa época, muitos jovens tornaram-se missionários. Em 70 anos de história (1812-1882), o Seminário de Princeton formou 3.464 rapazes em 150 cursos diferentes. Destes, 204 foram para os campos missionários — como Ashbel Green Simonton, fundador da Igreja Presbiteriana do Brasil. Todos os primeiros missionários da Junta Americana de Comissionados para Missões Estrangeiras, fundada em 1810, são frutos do avivamento. Entre eles estão Hiran Binghan, missionário no Havaí; Adoniram Judson, missionário e tradutor da Bíblia na Birmânia (hoje Myanmar); Luther Rice, missionário na Índia; e Jonas King, missionário na Palestina e, depois, na Grécia. Pelo menos quarenta estudantes convertidos na Universidade de Rochester, no estado de Nova York, tornaram-se pastores e missionários. Entre as dezenas de sociedades missionárias surgidas como resultado do Segundo Grande Avivamento está a histórica Sociedade Bíblica Americana (1816). No avivamento ocorrido na Universidade de Yale, no Connecticut, em 1831, o jornalista Horace Bushnell (1802-1876) teve uma profunda experiência de conversão e, aos 29 anos, trocou o curso de direito pela teologia, tornando-se um pastor congregacional e teólogo notável.

Quando o vento de Deus sopra, muitas vidas se convertem. Segundo Bruce Shelley, em 3 anos (1740-1742), o Primeiro Grande Avivamento acrescentou cerca de 50 mil membros só às igrejas da Nova Inglaterra. Entre 1750 e 1760, formaram-se 150 novas comunidades eclesiásticas, sem falar na contínua proliferação dos batistas. Williston Walker, da Universidade de Yale, acrescenta que — por intermédio dos reavivamentos, das organizações missionárias e das sociedades voluntárias — denominações outrora sem grande expressão vieram a se destacar. Os metodistas, de 15 mil membros em 1784, passaram a mais de 1 milhão em menos de 70 anos. Na primeira metade do século 19, os batistas aumentaram oito vezes. Só em Rochester, no estado de Nova York, 100 mil pessoas tornaram-se membros de alguma igreja.

O mais notável em todo esse movimento de Deus é que ele começa individualmente. Jesus não falou que os fariseus deveriam nascer de novo, mas sim Nicodemos. Ele é que precisava de convicção espiritual e relacionamento com Deus. Era sua poeira que precisava ser removida. Nós, individualmente, precisamos desse vento que leva para longe os traços de uma vida reprovada por Deus. No entanto, o importante a destacar é que, após a poeira ser retirada, o vento continua a soprar, com muito mais intensidade, para nos dirigir, nos movimentar, e nos levar para onde Deus nos quer. Aquele que é nascido de Deus é levado pelo vento. Não o vento das falsas doutrinas, do entusiasmo humano ou do emocionalismo descomprometido, mas sim o vento de Deus, a ação direta de Seu Espírito, que nos faz crentes limpos e nos leva a promover limpeza nesse mundo contaminado pelo pecado.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Você ama a Deus? (03/12/2009)

Você ama a Deus?
Ricardo Gondim - http://www.ricardogondim.com.br

Você me perguntou se eu O amava. Sim. Não hesito: amo a Deus com o que me resta de força, intuição e siso. Confesso não compreender o significado real desse verbo. Como soletrar amor? Como posso amar quem nunca vi? O que conheço de Deus para dizer tal coisa? Para piorar, nada sei sobre o amor.
Mas meu amor por Deus, por algum motivo, se alastra em minha alma. Saí das formulações categóricas a seu respeito. Desdenho das descrições metafísicas de uma filosofia medieval, do rigor dos catecismos beligerantes, das lógicas fundamentalistas. Empolgo-me com Deus porque já não o percebo com objeto de estudo. Ele não está lá, em algum recôndito espiritual, transcendental, paradisíaco, nirvânico, esperando ser adulado, pesquisado, definido. Percebo Deus na vida, com tudo o que ela tem de beleza e de horror. Vejo Deus nos verdes matizados da floresta, no vigor dos mares, na poeira que a bruma espalha, nas mudanças bruscas do tempo. Eu o intuo também nos rostos sofridos, nas festas alegres, nas derrotas desesperadas e nos triunfos espetaculares.
Meu amor por Deus, não sei explicar, enraíza-se em minha alma. Quebrei as réguas legalistas da religião, elas sobrecarregavam meus ombros; eram jugos que me azucrinavam. Eu vivia com paranóia. Não o tenho como o Grande Olho, que tudo vigia e tudo cobra. Despedi o Deus intolerante com as inadequações, iracundo com os tropeços de homens e mulheres que, apesar de tudo, lutam pela vida. Diante de olhos paternos, tabus e interditos abrandaram, culpas infundadas e autocomiseração manipulada enfraqueceram. A religiosidade da sofreguidão empoeirou-se em minha alma. Rasguei as cortinas que só vazavam a luz mortiça de um mundo espiritual cruel. Adornei o tabernáculo da minha espiritualidade com vitrais coloridos. Convidei músicos. Recitei poesia. Quero transformar meu culto em festa.
Meu amor por Deus, com segurança, se intensifica. Aprendi que ele não é um títere. Tardei, mas aceitei que a história não está escrita e selada. Resignifiquei a liberdade como desafio para a responsabilidade. Voltei as costas para a Divindade que atropela, misteriosa, que esconde desígnios, que manipula fatos e que usa as pessoas para satisfazer projetos gloriosos. A linguagem hermética da teleologia, os paradoxos da teodicéia, o anacronismo da doutrina da predestinação sumiram da minha rede de sentidos. Sinto-me livre para relacionar-me com o Dançarino. Ele me convida para ser seu par na valsa do grande baile universal.
Meu amor por Deus, agora sei, tornou-se mais inspirado. Distancio-me de chavões, reluto contra os clichês que já usei para me convencer de convicções que nunca possuí. Ciente de meus sentimentos irregulares, eu me escondia na linguagem piedosa. Ah, como tentava ostentar o que não era. Assumi a fragilidade de minhas certezas. Engatinho na leveza dessa relação com o Amigo mais chegado que um irmão. Reconheço que em determinados momentos meu amor não passa de puro sentimentalismo - que também se mistura com militância e racionalidade. Sou assim, mas eu me sinto sinto liberto e feliz de saber que aprendo a amá-lo do meu jeito, sem despersonalizar-me.
Soli Deo Gloria

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A esperança vence a desilusão (01/12/2009)

A esperança vence a desilusão
Ricardo Barbosa de Sousa - http://www.eclesia.com.br

Mesmo que as notícias piorem cada dia, eu ainda continuarei a ter a esperança de um dia ver este país ser governado por gente decente

Às vezes, me vem uma vontade enorme de chutar o balde! Penso em desistir, parar de lutar por um país melhor, sonhar com políticos altruístas, abnegados, que ajam como verdadeiros sacerdotes da nação. Minha vontade é de anular meus votos nas próximas eleições, pois ninguém os merece. Parece que o melhor, o mais sensato, é viver alienado, como muitos; não dar a mínima para a política, ignorar o país e cuidar da minha vida.
Confesso que diante de situações como as que estamos vivendo, tudo isso me passa pela mente. Manter a esperança quando a gente se sente traído é como querer permanecer de pé com as pernas quebradas. Por mais que nos esforcemos, não dá – não há mais nada em que se apoiar. Então, sem a utopia que nos motiva, jogamos a toalha e nos entregamos ao cinismo, aquela descrença que toma conta da alma e nos rouba os sonhos mais nobres.
Tais sentimentos passam por mim e chegam a me fazer considerar que este é, provavelmente, o melhor caminho. Mas, em algum momento, parece que enfrentam uma espécie de resistência interna. Eles não chegam a corromper totalmente meu coração e minha mente; lentamente, volto a me recompor e a reconsiderar a fonte dos meus sonhos e esperanças. Vejo então que elas não podem se sustentar num alicerce tão frágil e efêmero como o das ambições insanas pelo poder.
O apóstolo Paulo, ao referir-se à fé de Abraão, disse que o patriarca “esperava contra a esperança”. Abraão cria numa promessa que, embora teoricamente impossível, lhe fora feita por Deus. As chances de acontecer aquilo que o Senhor lhe havia prometido eram mínimas – para dizer a verdade, nenhuma; mas ele creu, e sua fé lhe encheu de esperança. E o que dizer de Habacuque, um profeta de Deus preocupado com seu país e o futuro de sua gente? Aflito, ele perguntou a Deus: “Até quando, Senhor, terei que conviver com a injustiça e opressão?” A princípio, qualquer um esperaria uma intervenção divina eliminando a iniqüidade e trazendo de volta a retidão. No entanto, a resposta de Deus surpreende o profeta: os conflitos, ao invés de diminuírem, iriam aumentar. Ele, sem entender, prefere calar-se e permanecer atento ao que Deus iria fazer.
Habacuque nos dá uma das lições mais preciosas sobre esperança. Diante da devastação, da corrupção, da injustiça e do sofrimento, ele não a perdeu. Na sua oração, o profeta diz: “Mesmo não florescendo a figueira, e não havendo uvas nas videiras; mesmo falhando a safra de azeitonas, não havendo produção de alimento nas lavouras, nem ovelhas no curral nem bois nos estábulos; ainda assim, eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação. O Senhor, o soberano, é a minha força; ele faz os meus pés como os do cervo; faz-me andar em lugares altos.”
De onde Abraão e Habacuque tiraram sua confiança? Os fatos que presenciaram conspiravam contra qualquer esperança. Abraão não tinha motivos para acreditar que, em sua velhice, pudesse ainda ter filhos. Parecia coisa de lunático, projeção da sua carência. Da mesma forma foi com Habacuque. Esperar o quê? O exército dos caldeus estava marchando sobre sua terra. Anunciava-se uma devastação total, uma crise sem precedentes. No entanto, ambos creram na ação misteriosa e soberana de Deus.
O apóstolo Paulo afirma que permanecia sempre disposto, cheio de esperança e trabalhando arduamente porque, mesmo que seu homem exterior – presenciando as circunstâncias políticas e sociais, a falência dos projetos humanos ou as limitações da ciência – sofresse os golpes fatais da desilusão, seu homem interior, aquele lugar onde a fé nutre a esperança, ia se renovando dia após dia. A crise moral, política e ética que vivemos hoje serve de alerta para nos fazer ver de onde temos alimentado a esperança. O slogan da campanha vitoriosa do presidente Lula dizia que “A esperança venceu o medo” e encheu muita gente de ânimo, Mas hoje, o medo e a desilusão rondam de novo a esperança. Olhamos para o futuro e não enxergamos nada; as possibilidades de mudança evaporaram. Na melhor das hipóteses, quem sabe, poderemos sonhar com um governo que seja mais esperto, que esconda melhor as tramas do poder, os caixas dois e os favores políticos. Talvez poderemos também sonhar com uma reforma política, destas para inglês ver, que servirá apenas para, mais uma vez, iludir eleitores sonhadores.
Mas a esperança é nutrida pela fé, e não fé em um partido, um político com discurso moralista, religioso ou ideológico. Nossa esperança, hoje e sempre, é sustentada pela Palavra de Deus, pela certeza de que o Senhor reina e que conduz todos as coisas para o fim que ele mesmo determinou. É por causa dele e do seu Reino que continuamos a lutar incansavelmente até que haja justiça. É por causa da fé que podemos dizer como Habacuque – ainda que o poder continue corrompendo os mais nobres ideais; ainda que a maioria dos políticos não mereçam nossa confiança; ainda que malas de mensalões continuem circulando nos corredores do poder; ainda que a mentira permaneça na boca daqueles que juraram dizer só a verdade; mesmo assim, eu exultarei no Senhor e me alegrarei no Deus da minha salvação.
Não pretendo chutar o balde, muito menos me juntar aos alienados. Mesmo que as notícias piorem cada dia e o mercado dê sinais de agitação e intranqüilidade, ou ainda que aqueles em quem um dia eu confiei me decepcionem e os sonhos que um dia acalentei se frustrem, eu ainda continuarei a sonhar e ter a esperança de um dia ver este país ser governado por gente decente. Líderes que sejam servos do povo, que aspirem ao sacerdócio e não ao poder, que lavam os pés uns dos outros e não se curvam diante daqueles que oprimem e amam a iniqüidade e não a justiça. Continuo tendo esta esperança porque sei em quem tenho crido, e sei que somente nele minha esperança repousa.