Mau testemunho
Luiz Sayão
Qualquer evangélico conhece a famigerada expressão “mau testemunho”. A advertência dos púlpitos sobre o tema é histórica. Os pastores e pregadores sempre enfatizaram a necessidade de não causar escândalo aos descrentes, levando-os ao distanciamento da fé, de Cristo e da igreja. Infelizmente, parece que hoje não vivemos dias promissores com respeito a essa questão.
O impacto do mau exemplo é devastador. Em nossos dias, uma das comprovações do efeito terrível do mau exemplo associado à má fama no cenário internacional é a dos Estados Unidos. A poderosa nação americana teve uma trajetória ascendente meteórica desde a Segunda Guerra Mundial. Os EUA passaram a ser vistos como nação libertadora, defensora dos ideais democráticos e igualitários. Era a expressão da liberdade! A derrota imposta ao nazismo e o enfrentamento à opressão comunista soviética e chinesa renderam aos norte-americanos uma simpatia internacional aparentemente duradoura.
No entanto, nos últimos anos, os EUA parecem ter desprezado a importância de uma boa imagem no exterior. O país entrou numa guerra desastrosa com o Iraque, que parece tornar-se um novo Vietnã. Além de ter desprezado a ONU, o governo americano não conseguiu comprovar as justificativas da guerra, sacrificou milhares de soldados e acendeu o estopim de um conflito civil iraquiano que parece não ter fim. O fato é que a nação hoje é vista como imperialista, opressora, anti-ecológica, repressora cruel de imigrantes e inimiga do Terceiro Mundo. Pouca gente comenta o fato, mas, surpreendentemente, o governo Bush tem conseguido realizar o sonho de Fidel Castro e Che Guevara: uma América Latina mais vermelha do que nunca. A esquerda tem crescido como uma espécie de efeito anti-EUA. Hoje, Brasil, Argentina, Uruguai, Chile, Equador, Bolívia, Venezuela e Nicarágua possuem governos de esquerda. Sendo que Venezuela, Equador e Bolívia mostram uma tendência de radicalização esquerdista.
Sem querer entrar no mérito da questão, é fato notório o desgaste da imagem americana no mundo e na América Latina. Esse desgaste atinge o movimento missionário dos EUA. Conversando recentemente com um amigo que vive em Portugal, ele me contou que um missionário no mundo árabe chorou num encontro, afirmando que as decorrências de 11 de dezembro causaram um atraso de 700 anos na obra missionária entre os povos de fala árabe. Lamentável!
Quando olhamos para as Escrituras, a necessidade da “mensagem através da vida” é fundamental. Vejamos o que nos diz a Bíblia:
“Vocês são a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. E, também, ninguém acende uma candeia e a coloca debaixo de uma vasilha. Ao contrário, coloca-a no lugar apropriado, e assim ilumina a todos os que estão na casa. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.14-16).
"Se algum de vocês sofre, que não seja como assassino, ladrão, criminoso, ou como quem se intromete em negócios alheios. Contudo, se sofre como cristão, não se envergonhe, mas glorifique a Deus por meio desse nome” (1 Pe 4.15,16).
“Mas se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe seria amarrar uma pedra de moinho no pescoço e se afogar nas profundezas do mar. Ai do mundo, por causa das coisas que fazem tropeçar! É inevitável que tais coisas aconteçam, mas ai daquele por meio de quem elas acontecem!” (Mt 18.6,7).
Como se pode constatar, o testemunho cristão é parte integrante da mensagem anunciada. Para a maioria das pessoas, a “comprovação” da mensagem cristã está na vida dos que foram alcançados por ela. A vida fala mais alto e convence. O contrário também é verdadeiro. Como é trabalhoso evangelizar depois de tantas guerras religiosas, divisões, inquisição, crimes sexuais de religiosos, abusos de poder e uso indevido do dinheiro. O desafio é muito grande.
Talvez o maior impacto do testemunho cristão hoje seja decorrente da realidade cultural pós-moderna em que vivemos. O fato é que nós, protestantes e evangélicos, elaboramos nossa teologia evangélica no arcabouço da modernidade. Assim, nossa apologética sempre foi marcada pela comprovação racional, lógica e científica da fé cristã. Dezenas de livros e artigos foram escritos para mostrar a razoabilidade da fé e da doutrina cristã. A verdade é que não vivemos mais num mundo sensível a esse tipo de discurso. A mera exposição racional da fé cristã não atinge o homem contemporâneo.
Na modernidade, o homem procurava a explicação e a razoabilidade da fé; na pós-modernidade, o homem quer saber se somos coerentes com o que cremos. O indivíduo pós-moderno não se importa tanto com a comprovação lógica das coisas; seu interesse é descobrir se de fato acreditamos no que dizemos a ponto de vivermos e morrermos por aquilo.
Já o grande filósofo dinamarquês Kierkegaard, um dos precursores do mundo pós-racionalista, afirmava que alguém pode negar uma verdade científica (como foi o caso de Galileu), para preservar sua vida, sem que seja criticado por isso. Ninguém imagina que seria razoável fazer o oposto! Todavia, se uma pessoa nega a fé para se preservar, isso é inaceitável.
A verdade da fé, conforme Kierkegaard, é a verdade pela qual estou disposto a morrer. Ela é distinta da verdade científica. Ainda que essa perspectiva mereça críticas por seu subjetivismo, observemos como essa mentalidade é o paradigma predominante hoje. A maioria dos não-religiosos não se importa com a comprovação da fé e sua apologética criteriosa. No entanto, eles criticam os cristãos pelo seu procedimento incoerente. Há pouca crítica a outras religiões pelo mesmo motivo. No entanto, a idéia da supremacia cristã está na mente da maioria da população. Por isso, o cristianismo deve ser mais responsabilizado! Se o índio pagão mata, o budista japonês faz guerra, o muçulmano pratica escravidão, a maioria se cala; mas se é um cristão, a crítica é dura. De quem mais se espera, mais se cobra. No fundo, a maioria sabe da singularidade de Jesus de Nazaré e de sua doutrina.
A verdade é que o mundo de hoje está sedento e ansioso por respostas sobre a vida e sobre a morte. A argumentação apologética e a prova racional ainda têm lugar. No entanto, o que fará diferença é a nossa maneira de viver. Que as palavras de Paulo ressoem em nossos ouvidos para o benefício do Evangelho: “Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor”.